A Posse de Bola Fora de Campo

Ah! A Posse de Bola! Amadas por uns, temida por outros, coringa para tantos.

Pois é, muita gente gosta dessa estatística, quando ela reforça seus argumentos. Agora, quando ela vai contra, melhor fingir que não conhece.

Assim, ter mais posse é genial quando o time ganha, e inútil quando o time perde. 

A posse de bola é o recorte mais incompleto do que de fato foi um jogo. Você sabe como ela é calculada?

Existem diversas metodologias, o problema já começa aí, posse de bola não é um conceito universal. Alguns calculam por tempo, outros calculam por número de passes, e enquanto eu escrevo esse artigo, provavelmente alguém já criou alguma outra metodologia. 

É sempre bom deixar claro, que o problema não são as diferentes metodologias. Muito menos calcular o volume de posse em si. 

Afinal, ela é muito útil no dia a dia dos clubes!

Agora, de fato, sozinha ela não explica o que foi um jogo. Como eu costumo dizer, as estatísticas mostram algumas coisas, mas escondem tantas outras. 

Em especial, a posse de bola esconde muita coisa. Ficar com a bola por fora do bloco adversário é uma coisa, infiltrar é outra.

Hoje, mesmo com a pulverização dos formadores de opinião, uma descentralização que a princípio pode sugerir quebra de paradigmas, estamos vendo os mesmos roteiros sendo seguidos

Nesse roteiro, a posse de bola é o coringa do baralho. 

A Arte de Bater nos Dados Até Que Eles Confessem

Um grande comentarista (que eu admiro!) comentou sobre a partida entre Palmeiras e Chelsea, dizendo que o Palmeiras havia sido “covarde” em sua estratégia. O argumento era que os números diziam por si só, o Palmeiras não viu a cor da bola, era só olharmos a posse de bola. 

Discordo totalmente, mas respeito todas as opiniões.

Agora, na partida entre Manchester City e Tottenham, o mesmo profissional disse que o Tottenham de Antonio Conte havia sido muito “inteligente” em sua estratégia, dando a bola para o City. 

Essa visão poderia até fazer sentido, se não fosse mentira. 

Nunca vai ser o bastante olhar a posse de bola para saber se uma equipe foi “covarde”, ou se seu adversário foi “superior”.

Aliás, o que é ser superior no futebol? Vencer? Jogar melhor? Agradar o torcedor?

Nesse caso, o que seria “jogar melhor”? Ter mais posse de bola? 

Vamos voltar ao exemplo, se compararmos em termos de eficiência estratégica geral, veremos que o Tottenham criou quatro boas chances contra o City, e cedeu outras quatro (além do pênalti). Enquanto o Palmeiras criou três boas chances contra o Chelsea, e cedeu apenas uma (além do pênalti). 

Falei disso aqui na análise completa da final do Mundial, caso não tenha visto está tudo explicado neste vídeo

Ou seja, porque o Palmeiras teria sido “covarde” enquanto o Tottenham teria sido “inteligente”?

Não faz o menor sentido!

Posse de Bola é o Coringa

Então, isso é usar a posse de bola como coringa. Quando você quiser falar bem sobre um time que venceu com posse de bola, ela vai sustentar seu argumento. Mas quando você quiser fazer o oposto, basta dizer que no futebol só a posse de bola não ganha jogo. 

A posse de bola não é a vilã da história, mas a forma como ela entra no debate esportivo vigente no Brasil, é totalmente sem fundamento.

Comentar futebol está cada vez mais virando “a arte de bater nos dados até que eles confessem”.

A opinião já está pronta antes da análise. Parte-se da opinião pronta, para buscar os números que podem sustentar os argumentos.

Deveríamos estar fazendo exatamente o oposto. Partir da análise, do jogo completo, para tirar qualquer opinião.

Estamos perdidos!

Votarei para escrever sobre a posse dentro de campo. Sobre futebol e o porquê as  equipes adotam táticas que valorizam, algumas mais, outras menos, a posse de bola. 

Grande abraço e até a próxima!

Curso de Análise Tática

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