Não Nascemos Para Jogar Futebol

Futebol é um esporte de vantagens defensivas. Assim, a grande maioria dos ataques não termina em gol. Só para ilustrar, basquete é um jogo de vantagens ofensivas. Dessa forma, temos o oposto, boa parte dos ataques terminam em pontos. 

Futebol sempre foi, e sempre será, um jogo onde o erro é mais frequente que o acerto. Isso claro, considerando ainda as jogadas de ataque, e não passes de lado. 

Não nascemos para jogar futebol. A coordenação motora dos humanos é mais eficiente nos membros superiores. 

Justamente por isso admiramos tanto o futebol. Porque é muito difícil jogar! 

Quem joga em alto nível, de fato, é especial.

No entanto, porque será que somos tão intolerantes ao erro? 

Eu falei aqui neste outro artigo sobre a profecia autorrealizável, onde o julgamento negativo dificilmente é substituído por um positivo. Em outras palavras, a implicância com um jogador bate, gruda forte e dificilmente sai. 

Então, porque será que temos tantas restrições a rever pontos de vista?

Essas duas questões estão conectadas, e tem a ver com os formatos que consumimos futebol.

Acompanhe o raciocínio.

Ciclo da Intolerância ao Erro

A intolerância ao erro está ligada a interpretações equivocadas sobre o que de fato acontece em campo. A grande maioria das pessoas intolerantes ao erro não assistem ao jogo inteiro. Não tem paciência. Mas assiste aos gols, ou no máximo aos melhores lances. 

Está errado? Não!

O erro começa no julgamento. Quando alguém que consome futebol dessa maneira torce, perfeito. Quando julga, ferrou!

Alimentar-se de melhores lances causa a falsa impressão de que o futebol é um jogo de vantagens ofensivas

Faça isso por anos e anos, e pronto! Você agora tem uma visão totalmente deturpada do que é o jogo. A partir daí qualquer opinião sobre futebol, tem grandes chances de estar errada. Mesmo que pareça a coisa mais certa do mundo na sua cabeça.

Melhores lances são fake news!

A catástrofe é que a grande maioria das pessoas está presa nisso, alimentando falsas sensações do que acham que é um jogo de futebol. E se sentem preparadas para opinar, dirigir o time, contratar jogadores, demitir dirigentes, e claro, apitar o jogo. 

Novamente, nada contra o resumão. Desde que você saiba que a partir deles você não vai saber se um jogador é um gênio ou um burro.

Resistência a Rever Conceitos

A segunda questão tem a ver com o fato de que, a partir do momento em que formamos nossas opiniões, a resistência para mudá-las passa a ser enorme

Nosso cérebro já se encarregou de processar minutos e minutos de melhores lances, interpretou centenas e centenas de palavras dos comentaristas, e já organizou tudo para você se apropriar daquele conhecimento

A opinião agora é sua!

Além disso, houve um gasto energético enorme para o seu cérebro cumprir todas essas tarefas. Nosso cérebro não está programado para gastar energia à toa. Pelo contrário, ele quer poupá-la. 

Aquele resumão de esportes, despretensioso, que você assistiu relaxado com um olho na tela e outro no celular, agora direciona sua opinião sobre futebol.

Aliás, é bom deixar claro que eu não acho que exista uma conspiração para uma manipulação em massa das opiniões dos telespectadores. Nada disso! O objetivo é simplesmente ter sua audiência e vender espaços publicitários. Isso por si só já é um desafio enorme. 

O direcionamento da sua opinião acontece na pauta!

O tema aparece, alguém emite uma opinião eloquente, outrem discorda. Um dos dois lados te representa, você absorve aquilo que faz mais sentido para você. Passa a seguir o fulano, cancela o Beltrano, e vida que segue até o próximo programa. 

Veja bem, o problema é a pauta. Ela também saiu dos melhores lances! Inconscientemente, você se apropriou de uma opinião, em um tema que você sequer sabia que precisaria ter uma. 

Mas vamos voltar à questão: porque resistimos à mudança de opinião?

O Maior Problema da Humanidade

Muitos acreditam que as grandes catástrofes do mundo causadas por humanos começaram (e começarão) por problemas de ego.

O ser humano em geral tem um problema sério com o ego. Ele trata de nos proteger quando somos contrariados, e cria inúmeros artifícios mentais para nos convencer de que estamos certos.

É por isso que os programas de discussão geram tanta audiência. Quando alguém fala uma “groselha” muito absurda, e outra pessoa rebate, você se sente representado. Seu ego trata de reforçar que você está certo.

Dificilmente mudamos de opinião, mesmo diante dos fatos, porque mudar significa assumir que estivemos errado o tempo todo. Essa frustração vai ser bloqueada ao máximo pelo nosso ego.

Ou seja, errar é humano, mas assumir um erro é desumano, não fomos feitos para isso. 

Não nascemos para jogar futebol, muito menos para mudar de opinião. Essas coisas só acontecem com muito esforço.

Cuidado com o que você consome por aí!

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