Por Que não Revelamos Mais Tantos Craques?

Revelamos craques ou não revelamos mais? Fato é que as últimas décadas não têm sido as melhores para os brasileiros nos grandes clubes da Europa.

Seria apenas uma entressafra, ou seria o esgotamento de um modelo?

Precisamos voltar ao tempo do futebol raíz? Ou agora o que importa é “taticalizar” os atletas desde a infância?

Essas questões estão constantemente nos debates esportivos e permeiam praticamente todas as pautas. Uma vez que esse ponto é a origem de outros grandes problemas.

O objetivo desse texto é compartilhar algumas ideias e contribuir com essa discussão, que na minha visão é fundamental para o futuro do esporte no nosso país.

Aliás, um ponto que eu gostaria de esclarecer antes de começar esse texto, é que não estou dizendo que não temos mais craques brasileiros. Obviamente que temos!

A questão desse texto é em termos de quantidade, e isso é um fato. Temos um volume cada vez menor de brasileiros sendo protagonistas nos grandes clubes do mundo.

Convocações e Polêmicas

Tradicionalmente, até o início dos anos 2000, uma coisa era fato, toda convocação da seleção brasileira era cercada de polêmicas.

Era tanto craque em cada posição, que sempre alguém ficava de fora. Assim, alimentando as discussões sobre a competência de quem convocava.

Convocações e polêmicas
Felipão deixou Romário fora da lista em 2002.

A questão aqui não é se as convocações foram bem feitas ou não, mas sim ilustrar a quantidade de grandes jogadores brasileiros, atuando em grande fase nos maiores clubes do mundo.

Coisa que hoje não acontece mais.

Cada vez mais a comissão técnica da seleção brasileira recorre a surpresas, nomes desconhecidos do público geral, para conseguir fechar um grupo de jogadores.

Mas como chegamos a esse ponto? O que aconteceu ao longo das últimas décadas que nosso modelo exportador de craques faliu?

Seleção de 82 – A Virada de Chave

Para responder a essa pergunta precisamos voltar 40 anos no tempo, e falar um pouco sobre a seleção de 82.

Revelamos Craques
Seleção brasileira de 1982.

A seleção brasileira do mestre Telê Santana, é tida por muitos como uma das maiores de todos os tempos. Porém, a derrota para a Itália acabou com o sonho da consagração dessa geração excepcional.

No entanto, o ponto aqui é outro. Esse time também é tido por muitos como um marco em outro sentido.

Enquanto o mundo inteiro se encantava com a nossa seleção, e importava as boas ideias do mestre Telê, o Brasil começou a ir na contramão.

Isso porque o resultado sempre pautou todas as discussões dos influenciadores. A seleção não foi campeã, logo algo deveria estar muito errado. A Itália havia nos vencido, logo era esse o novo modelo de sucesso a ser perseguido.

Ou seja, enquanto a Europa se espelhava no nosso futebol, e incorporava o que de bom tinha naquela seleção tão marcante, nós trazíamos da Europa o que tinha de ruim num futebol que rapidamente estaria ultrapassado.

Imediatismo e Desperdício

Nossa cultura imediatista, e “canceladora” (que aliás não é coisa nova), fez com que abandonassemos nossas principais vantagens enquanto país do futebol.

Passamos a valorizar um jogo mais físico e brigado, do que um jogo plástico, técnico e encantador. Tudo isso guiado por uma busca cega pelo resultado.

O paradoxo é que, isso a história nos mostra, o resultado depende muito mais de um planejamento inteligente de longo prazo, do que de um tratamento de choque de curto prazo.

Ainda mais quando esse tratamento é totalmente errado. Então, nosso imediatismo acabou gerando um grande desperdício de talentos para as gerações seguintes.

Na base, onde o foco também é o resultado, e não o desenvolvimento, o perfil do jogador selecionado também mudou.

O craque, talentoso, habilidoso, mas que fisicamente era mais fraco na infância, perdeu espaço para o garoto que era mais forte, que havia se desenvolvido mais rápido.

Nessa etapa, a diferença física é determinante. Portanto, obviamente se o foco é o resultado imediato, esse vai ser um movimento natural.

O grande problema é que o físico se equilibra novamente na fase adulta. O craque que era fraco, tem totais condições de se fortalecer. Agora, e quando o jogador é forte mas tecnicamente ruim, ele vira craque?

É mais fácil fortalecer fisicamente um atleta, ou transformá-lo em um gênio da bola?

O Novo Estilo de Vida

Outro fator que contribui muito para os nossos problemas de formação é o novo estilo de vida das crianças. Aliás, isso não é um problema exclusivo do Brasil, mas sim do mundo todo.

Hoje as crianças estão muito mais online do que brincando na rua. Vários fatores contribuem para isso.

Novo Estilo de Vida
Mudanças no estilo de vida, alteram a rotina das crianças.

O campinho do bairro virou um prédio de 15 andares, com uma quadra fechada para um pequeno grupo. Que aliás não está na quadra, está na internet.

Existe a questão da segurança pública, as gerações anteriores se sentiam mais à vontade para passar tempo fora de casa.

Mas claro, não podemos subestimar que as brincadeiras virtuais são muito mais sedutoras. Existe um desenvolvimento de gamificação, desafios controlados, controle da frustração, metas de dopamina, e tantas outras técnicas que tornam os jogos extremamente viciantes.

Hoje boa parte da criançada prefere ficar no tablet, do que ficar no sol correndo atrás de uma bola. Como o cérebro busca maximizar o prazer, a concorrência é desleal.

Além disso, os pais estão ali, o tempo todo gritando na orelha dos seus filhos. Contribuindo ainda mais para essa frustração e desprazer. Antigamente, jogar bola na rua era prazer, diversão, motivação interna. Hoje, a fuga para o mundo mágico acaba sendo o mundo virtual.

Entressafra ou Falência do Modelo?

Tudo isso para dizer que, nosso modelo de formação de craques faliu há muito tempo. Não estamos vivendo uma entressafra.

As gerações anteriores se formavam nas ruas. As peneiras eram recheadas de atletas extremamente “cascudos”, talentosos e em busca de um sonho. Os clubes se limitavam a selecionar os melhores, e tinham uma enorme margem de erro.

Dessa maneira, acabamos acomodados. Nunca houve uma grande preocupação em desenvolver craques, aprimorar metodologias de seleção ou criar treinamentos para transformar atletas.

Aqui por décadas o modelo foi esse. Peneirar os craques que chegavam praticamente prontos.

Entretanto, com a mudança no perfil do selecionado e a mudança no estilo de vida, a fonte secou.

Polarização Cega

O problema está escancarado, os fatos estão aí para quem quiser ver. Dessa forma, é só resolver, certo?

Errado! Como tudo nesse país, as coisas acabam polarizando cegamente.

Discussões polarizadas
Discussões polarizadas colocam pessoas na defensiva.

Existem duas correntes em curso. A primeira é a do boleiro raíz, que defende resgatar a essência do futebol brasileiro. A segunda é a do cientista do esporte, que defende que precisamos virar o modelo europeu de formação, criar uma espécie de La Masia em cada clube.

Assim, perde-se muito tempo discutindo quem está certo e quem está errado. Quando na verdade as duas correntes tem pontos positivos e negativos.

São poucos os que percebem que a solução necessariamente passa pelo bom senso. Passa por criar modelos próprios, adaptados à realidade de cada clube, de cada região do país.

Portanto, é impossível replicar um modelo europeu no Brasil. Bem como, é impossível voltar no tempo para jogar no “rapadão” do bairro.

Discussões polarizadas como essa só nos fazem perder cada vez mais tempo.

O Verdadeiro Resultado

Em resumo, enquanto estivermos de olho no resultado de curto, o verdadeiro resultado alcançado será o da estagnação. Além das discussões inúteis que alimentam um modelo falido.

Todo esse movimento que já dura décadas nos trouxe justamente ao ponto onde estamos. Ou seja, essas são as causas que respondem à questão levantada no início do texto.

Por que não revelamos mais tantos craques?

Falência de um modelo ultrapassado, discussões polarizadas que não levam a lugar nenhum, mudanças sociais, tudo isso contribui de alguma forma.

Então na próxima convocação, não se assuste caso você não conheça alguns dos nomes que estarão na lista. Hoje o trabalho da comissão técnica é muito mais desafiador do que era há algumas décadas atrás.

Como Virar o Jogo?

É preciso ser o mais realista possível para traçar uma solução. O primeiro passo é aceitar as condições atuais, e não querer reviver o passado exatamente como era.

Outra coisa é não adotar a síndrome de vira lata e achar que o modelo europeu é o único a ser perseguido.

Se quisermos ser melhores, não acontecerá simplesmente copiando. Quem copia está sempre um passo atrás de quem cria.

Nossa realidade é outra, isso é fato.

Outra armadilha que precisamos nos livrar é a polarização. É bem óbvio que tática ganha jogos, assim como é bem óbvio que improviso e criatividade também ganham jogos.

Agora, por que não unir o melhor dos dois mundos?

Criar um processo de formação que ao mesmo tempo estimule o improviso a criatividade, que mantenha viva a essência do futebol brasileiro. Mas que também forme atletas inteligentes, que tenham disciplina tática, entendam a importância do jogo coletivo.

Uma coisa não exclui a outra!

Enfim, não revelamos craques, a culpa é toda nossa, mas ainda temos a faca e o queijo nas mãos.

Vamos ficar presos a discussões inúteis, ou vamos de fato virar o jogo?

Grande abraço e até a próxima!

Curso de Análise Tática

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